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Desde: 15/06/2005      Publicadas: 8      Atualização: 13/08/2005

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  13/08/2005
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Um tema, duas penas - Gançalves Dias & Vicente de Carvalho

pretendo comentar hoje dois textos em que dois consagrados poetas brasileiros trabalham o mesmo tema: a flor e a fonte, sob pontos de vista bem diferentes

Um tema, duas penas - Gançalves Dias & Vicente de Carvalho Pretendo comentar hoje dois magníficos textos de dois dos maiores nomes da literatura nacional. De um lado, a flor: a beleza, o singelo, a pureza, o ideal. De outro, a água: sem forma, absorvente, destruidora. Deste tema rico em interpretações, dois grandes nomes da poesia nacional extraem dois textos aparentemente contraditórios. A aversão pela água, na poesia de Vicente de Carvalho, bem como seu anseio por ela, na de Gonçalves Dias, lembram-me um casal de namorados, o eterno descompasso em que homens e mulheres repetem século após século seu desencontro fatal, como duas raças alienígenas mutuamente estranhas. Podemos pensar no yin-yang, o feminino e o masculino; quando um quer, o outro não quer. À primeira vista, contudo, já é evidente o caráter narcisista destes dois poemas, na imagem do espelho das águas. É o ser humano a mirar-se na realidade e a vislumbrar, de um lado, em Gonçalves Dias, um ideal, e em Vicente de Carvalho, a morte que o amedronta. Frágil ser humano, tão belo, tão efêmero, tão à mercê da vida sob a qual sente-se com tão pouco controle, enfrentando a indiferença ou a oposição feroz. De forma que estes dois poemas, que a princípio parecem opostos nos remetem à inexorabilidade do destino. A água é o inconsciente humano, a força desconhecida que controla nossa vida, e também, pela ausência de forma, a imagem do Deus devorador ou receptivo, que nos recolherá em seu seio após a morte inevitável. Com que sensibilidade, com que agudeza trabalham estes dois mestres e quanta filosofia se esconde atrás de uma situação aparentemente banal: a flor... a fonte... Deixemos agora de lado estes frios argumentos e deleitemo-nos com estas belas imagens. Afinal, quando escreveram estes versos, estou quase certa de que nossos poetas não pensaram em nada disso. Poetas não usam o raciocínio, usam a imaginação. A pensar, preferem sonhar. Sonhemos, pois... "Não Me Deixes!" Gonçalves Dias Debruçadas nas águas dum regato A flor dizia em vão À corrente, onde bela se mirava ... "Ai, não me deixes, não!" "Comigo fica ou leva-me contigo Dos mares à amplidão; Límpido ou turvo, te amarei constante; Mas não me deixes, não!" E a corrente passava; novas águas Após as outras vão; E a flor sempre a dizer curva na fonte: "Ai, não me deixes, não!" E das águas que fogem incessantes À eterna sucessão Sempre dizia, e sempre embalde: "Ai, não me deixes, não!" Por fim desfalecida e a cor murchada, Quase a lamber o chão, Buscava ainda a corrente por dizer-lhe Que não a deixasse, não. A corrente impiedosa a flor enleia, Leva-a do seu torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: "Não me deixaste, não!" A Flor e a Fonte Vicente de Carvalho "Deixa-me, fonte!" Dizia A flor, tonta de terror. E a fonte, sonora e fria, Cantava, levando a flor. "Deixa-me, deixa-me, fonte!" Dizia a flor a chorar: "Eu fui nascida no monte... "Não me leves para o mar". E a fonte, rápida e fria, Com um sussurro zombador, Por sobre a areia corria, Corria levando a flor. "Ai, balanços do meu galho, "Balanços do berço meu; "Ai, claras gotas de orvalho "Caídas do azul do céu!... Chorava a flor, e gemia, Branca, branca de terror, E a fonte, sonora e fria Rolava levando a flor. "Adeus, sombra das ramadas, "Cantigas do rouxinol; "Ai, festa das madrugadas, "Doçuras do pôr do sol; "Carícia das brisas leves "Que abrem rasgões de luar... "Fonte, fonte, não me leves, "Não me leves para o mar!..." As correntezas da vida E os restos do meu amor Resvalam numa descida Como a da fonte e da flor...
  Autor: Sonia Rodrigues


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